Sou do tipo de pessoa que toma partido. Não posso ver dois lados que procuro me informar e defender uma das partes. Acredito ser uma boa virtude, tanto que coloco sempre no meu currículo. É inevitável que eu não tome partido ao analisar um dos trechos mais emblemáticos da bíblia. Um assunto delicado. Sigam o raciocínio, amigos:
O trecho é a negação de que Jesus Cristo estaria vivo, protagonizado por Tomé. “Não acredito, a não ser que veja as feridas dos pregos nas suas mãos, ponha os dedos nelas, e toque com a minha mão na sua ferida do lado.”, disse o apóstolo. Veja bem, não há qualquer bobagem no que foi dito. Afinal, poderia ser um delírio coletivo dos outros apóstolos a tal afirmação da ressurreição. É verdade que uma das mais fortes pregações de Jesus era evitar mentiras, e, nesse caso, os apóstolos não tinham motivo para fazer isso. Principalmente porque com coisa séria não se brinca.

Jesus Gatão.
Longe de duvidar de Jesus Cristo, mas é que é difícil de engolir esse lance de ressurreição. Pode ser uma coisa muito normal para quem transforma água em vinho e anda sobre a água, mas para nós, meros mortais, é um lance meio sinistro. Tomé não tem culpa, ele tem o direito de não acreditar. Pensem bem, todos estavam muito chateados com a morte do mestre, é normal acontecer certos tipos de distúrbios. Mas Jesus tem certa razão, Tomé deveria confiar nos amigos. É como no teatro. Cada ator precisa confiar um no outro, do contrário a peça não acontece.
Mas eis que acontece o seguinte: oito dias após a negação de Tomé acontece o que ninguém esperava. Jesus volta e, dessa vez, na presença de Tomé. Essas aparições dele deviam ser mais inconvenientes do que stand-up comedy, mas quem sou eu para achar algo. O fato é que, ao voltar, Jesus não contou como era o paraíso e nem mostrou fotos da viagem – o que qualquer outro faria no lugar dele. Ora, se Jesus Cristo fosse tão previsível não seria Jesus Cristo. Ele provoca Tomé: “Mete o dedo nas feridas das minhas mãos, e a mão no meu lado. Não continues descrente. Acredita!”.
Avalie bem o quão desagradável foi esse momento. Poderia muito bem ter sido evitado. Constrangimento desnecessário. Tomé, sem graça, exclama “Meu Senhor e meu Deus!”. Então Jesus olha bem no fundo dos olhos de Tomé e diz “Crês porque me viste, mas benditos os que não me viram e, mesmo assim, crêem.”.
Então eu não entendo. O certo então é acreditar em tudo o que falam, não importa o quão absurdo possa parecer. Se um guarda pára o meu carro e pede os documentos basta eu falar que eles estão no porta-luvas e que estão em ordem e, nesse caso, bendito será o guarda que crer sem conferir. Acredito que a lei vale para todos, afinal, somos todos filhos de Deus. Logo, até Jesus Cristo deveria mostrar o documento do carro.
Além do mais, acho que Jesus foi um pouco arrogante com Tomé e essa é uma atitude que eu não espero do salvador. Tomé tinha motivos pessoais para não acreditar em Maria Madalena, a primeira que disse ter visto Jesus, e nos apóstolos. Se Judas deu informações de Jesus em troca de algumas moedas por que os outros apóstolos não poderiam ser subornados a passar informação falsa? Tomé foi muito corajoso em acreditar apenas no que os olhos vêem. Tomé não está descrente de que a economia americana nunca irá se reerguer ou de que as Coréias nunca irão se unificar. Ele apenas não acredita que um homem, por mais poderoso que seja, tenha ressuscitado apenas para dizer “A paz seja convosco”.
Depois dessa analise acredito que Tomé esteja coberto de razão e não merecia passar pelo constrangimento que passou diante dos outros apóstolos. Entretanto, fico do lado de Jesus porque não sou bobo. Ele disse que voltaria e eu não quero arranjar briga a toa.

- Calma. O texto acabou. Está tudo bem agora.
NÓ, Tô do lado do Tomézinho.
Eu no lugar de Tomé faria o mesmo. E digo mais: cutucava as feridas do Jê pra ver se era real mesmo.
Estou rindo muito dessa última imagem e da legenda.
HAHAHAHAHAHA. Bem bolado, bem bolado.